Voluntárias dão apoio jurídico e psicológico para vítimas de abuso

Rosa se casou jovem, antes dos 18. No início, o marido não era agressivo, mas as coisas foram mudando. Se a dona de casa dizia “não” para o sexo, ele virava o bicho. Além de viciado em sexo, ficou mais violento, não parava quando ela pedia. Doía. Sangrava. “Marquei numa agenda um total de 62 vezes que fizemos sexo em um mês”. Quando ela ameaçava ir embora, ele dizia que ia se matar. A família do marido culpava Rosa. Por causa das tentativas de suicídio e da questão financeira, ela continuou morando junto. Tinha ainda a questão dos dois filhos. Foram 20 anos de casamento.

Rosa, nome fictício, procurou ajuda na internet. Achou. Um grupo formado por advogadas, médicas, psicólogas e assistentes sociais oferece ajuda para mulheres vítimas de violência doméstica. São as Justiceiras, voluntárias que não cobram nada pelo apoio. No caso de Rosa, vítima de estupro conjugal, um dos principais tipos de violência. Muitas vezes, as mulheres nem reconhecem a situação

“Cada vez que me lembro me dá uma dor no peito. Não sei se é raiva ou ódio de mim de ter deixado aquilo acontecer”, escreve a dona de casa. Hoje, Rosa está se separando. Criada pela promotora de Justiça de São Paulo Gabriela Manssur e pela advogada Luciana Terra, a iniciativa já atendeu mais de 2,5 mil vítimas desde março, quando surgiu. O grupo se define como “força-tarefa pró-mulher que oferece orientação jurídica, psicológica, socioassistencial, médica, rede de apoio e acolhimento gratuito e online”.

Mulheres em situação de violência enviam mensagem por Whatsapp, recebem um link de formulário e o grupo faz encaminhamentos. Cada caso é tratado individualmente por telefone ou mensagens de texto.

“Oferecemos um pronto-socorro, com todos os encaminhamentos, para a mulher se reerguer”, conta a advogada Luciana Terra, uma das lideranças nacionais do movimento. Redes de apoio online aumentam a oferta de serviços de acolhimento e acompanhamento para vítimas.

No mesmo grupo de WhatsApp, há orientação emocional, jurídica e psicológica. São quatro mil voluntárias pelo País nas Justiceiras – eram 700 no início. São ações que complementam caminhos tradicionais, como delegacias especializadas e a Casa da Mulher.

Grupos virtuais de apoio, quase sempre conduzidos por gestoras femininas, criam um ambiente (ainda que virtual) de confiança e cumplicidade. São redes de mulheres que apoiam outras mulheres. É comum muitas evitarem espaços formais de denúncia por medo de constrangimentos em frente de um delegado ou juiz.

Na opinião de Luciana, a presença das mulheres do outro lado da linha ou do mouse ajuda a entender porque 50% das vítimas que procuram apoio ali nunca haviam feito denúncia em nenhum outro meio. “Muitas vezes, as mulheres enfrentam uma peregrinação e têm de repetir várias vezes a mesma história triste”, diz ela.

As Justiceiras atuam ao lado da Rede Feminista de Juristas (DeFEMde), criada em 2016 para combater a violência baseada no gênero dentro e fora do Direito. O nome é mesmo com “m” para destacar a sílaba “fem”, de feminismo e direito das mulheres. Cerca de 180 advogadas e juristas pelo País se articulam por Whatsapp e dão apoio jurídico gratuito para temas ligados ao direito das mulheres.

A maior parte dos casos é de violência doméstica, que envolve aspectos psicológicos, morais, físicos, patrimonial e sexual dentro de relações. Pelo aplicativo de conversas instantâneas, as especialistas trocam tese sobre casos, compartilham pedidos de ajuda que vêm pelas redes sociais. Em 2020, o grupo tem recebido entre três e cinco pedidos por dia. “É preciso buscar um Direito feminista. É um Direito contra os homens? Não. É um Direito pela igualdade”, diz a advogada Isabela Del Monde, uma das líderes do movimento. Com Assessoria