Anomalias

Já dizia Caetano Veloso nos versos de Vaca Profana que de perto ninguém é normal. O vencedor do prêmio Nobel de Economia de 2017, o economista americano e professor da Universidade de Chicago, Richard Thaler, afirmou após ter sido informado da premiação: “Para praticar bem a economia, é preciso ter em mente que indivíduos são humanos”. Perguntado sobre como gastaria o dinheiro do prêmio, respondeu: “Tentarei fazê-lo da forma mais irracional possível”.

Richard Thaler, com o psicólogo Daniel Kahneman – ele próprio vencedor do Nobel de Economia em 2002 – e diversos outros pesquisadores, inovou no campo que hoje conhecemos como economia comportamental.

Embora ainda não seja ensinada nos currículos básicos dos cursos de Economia, a economia comportamental tem hoje grande influência nas discussões sobre os efeitos de políticas públicas, no entendimento do funcionamento dos mercados, na compreensão das causas das crises financeiras. Ao contrário da economia tradicional, que vê os chamados agentes econômicos como seres puramente racionais, que fazem escolhas sem nenhum envolvimento emocional, e são movidos por objetivos claros que podem ser mensurados por uma “função utilidade” e reduzidos a sofisticado arsenal matemático, a economia comportamental afirma a irracionalidade de todos nós.

Usando vários experimentos com gente de verdade para avaliar a tomada de decisões e o processo de escolhas, o campo desnudou a tese da racionalidade pura e do interesse individual que ainda se apresenta como a premissa central em qualquer modelo econômico.

Fossem os agentes puramente racionais, como poderia a crise de 2008 ter acontecido? Afinal, não era claro para as instituições que emprestavam dinheiro para a compra de imóveis por pessoas desempregadas e sem nenhuma perspectiva de renda que esses indivíduos provavelmente acabariam dando um belo calote? Crises são apenas um exemplo entre vários acontecimentos econômicos que não podem ser explicados pelos modelos tradicionais utilizados pelos economistas.

Diversos outros exemplos são descritos por Thaler em um artigo de 1988 para o Journal of Economic Perspectives intitulado “Anomalias” – alguns desses exemplos seriam mais tarde replicados em seus interessantíssimos livros para o público não especializado. Como carioca, gosto, em particular do seguinte: imagine que você esteja na praia com uma amiga, num dia escaldante. Tudo o que você quer é uma cervejinha bem gelada. Sua amiga levanta-se e pergunta se você quer uma cerveja, e, caso queira, quanto estaria disposta a pagar por ela. A amiga lhe diz: “Só vou comprar se o preço for menor ou igual ao que você me disser estar disposta a pagar”. Mas, onde vai a amiga comprar a cerveja?

De acordo com a teoria econômica tradicional, o local da compra deveria ser irrelevante – seu preço de reserva, o quanto alguém está disposto a pagar para matar a sede naquele dia de sol, independe de onde a cerveja será adquirida. Richard Thaler, entretanto, descobriu o seguinte: se o local da compra for o quiosque pé-sujo da calçada, o preço que o indivíduo está disposto a pagar é menor do que se a cerveja fosse comprada no bar do hotel luxuoso do outro lado da rua. A razão? Não é aceitável que o dono do quiosque pé-sujo cobre o mesmo preço que o bar de luxo pela mesma cerveja. Tal atitude é, afinal, uma audácia, não?

Peço ao leitor(a) que agora imagine ser a cerveja do exemplo anterior uma equipe econômica de altíssimo gabarito. Façam o seguinte exercício mental: qual sua avaliação da mesma equipe econômica trabalhasse ela para Temer ou para seu presidente favorito? Qual sua avaliação se trabalhasse para Dilma ou seu presidente favorito?

Pensemos agora em algumas políticas econômicas. Por que o Refis de Dilma é pior ou melhor do que o Refis de Temer? Por que o não cumprimento das metas fiscais por Dilma foi melhor ou pior do que o não cumprimento de Temer? Caso as respostas dependam de juízos de valor sem estrita relação com os fatos e números, saibam que vocês, leitores, são como os economistas. Anormais e irracionais na sua humanidade.

Por O Estado de S.Paulo – Monica de Bolle

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